É
a primeira vez que o nome social pode ser usado no exame
Mariana Tokarnia, da Agencia do Brasil
Alunos/as no Enem: o prazo para solicitar o uso do nome social
termina hoje!
Pela
primeira vez, travestis e transexuais podem usar o nome social no Exame
Nacional do Ensino Médio (Enem).
A
medida foi celebrada por ativistas e atraiu mais candidatos ao exame. Dados
obtidos com exclusividade pela Agência Brasil mostram que até o penúltimo dia
de inscrição, 68 pessoas solicitaram o uso do nome social pelo telefone
0800-616161.
Essas
solicitações já entraram no protocolo do Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e serão atendidas. O número ainda
pode aumentar.
Segundo
o Inep, mais 27 pessoas ligaram para pedir informações sobre a questão. O prazo
para solicitar o uso do nome social termina hoje (23), assim como o período de
inscrição.
A
pedagoga e presidenta do Conselho Municipal LGBT de São Paulo, Janaina Lima,
diz que o uso do nome social atraiu mais candidatos ao exame.
“No
meu convívio social, eu sei de várias [travestis e trans] que estão se
inscrevendo. Saber que vai chegar lá e vai ser só mais uma pessoa concorrendo,
tem facilitado. Elas dizem que estão se inscrevendo só porque poderão usar o
nome delas e que não vão ser expostas antes mesmo de começar a prova”.
Travesti,
Janaína também se inscreveu no Enem. Apesar de ser formada, ela quer testar os
conhecimentos e verificar de perto o respeito ao nome social.
Os
candidatos devem fazer a inscrição normalmente no site do Enem. O nome a ser
usa-do é o que consta no documento de identidade, mas quem quiser, em seguida,
pode usar o telefone para pedir que seja identificado pelo nome social no dia
do exame - 8 e 9 de novembro.
A
inscrição só será confirmada após o pagamento da taxa de R$ 35, o que deve ser
feito até 28 de maio. Estudantes da rede pública e pessoas com renda familiar
até 1,5 salário mínimo são isentos.
“O
nome social garante que a pessoa seja respeitada no gênero em que está, para
que não sofra nenhum constrangimento”, explica a coordenadora de Políticas da
Região Sudeste da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais (ABGLT) e coordenadora colegiada do Fórum LGBT do
Espírito Santo, Deborah Sabará.
Deborah
é trans e fez inscrição no Enem. Ela pretende usar o exame para ingressar no
ensino superior. Ainda está em dúvida entre os cursos de história e serviço
social.
“O
percentual de pessoas trans no ensino superior é baixíssimo. Estamos também
longe das escolas, do ensino fundamental e médio. Mas eu acredito que isso vai
aumentar. Precisamos empolgar a nossa população a fazer o Enem e usá-lo para o
que for possível”.
Deborah
diz que não há um levantamento oficial sobre o acesso de travestis e transsexuais ao ensino superior.
No
entanto, em Vitória, são apenas duas pessoas, uma em instituição pública e
outra em particular, em um universo estimado de 390 trans em Vitória. Para além
da própria formação, ela espera servir de exemplo para o filho, Caio Felipe,
de 13 anos.
Atualmente,
travestis e transexuais podem solicitar à Justiça a mudança de nome na
carteira de identidade, mas o processo feito em particular é caro e pode levar
de um mês a mais de um ano.
O
advogado e coordenador do Grupo de Estudos em Direito e Sexualidade da
Universidade de São Paulo (USP), Thales Coimbra, diz que não há lei específica
para a questão e a pessoa pode ser submetida a uma série de constrangimentos.
Para ele, a medida adotada pelo Enem é positiva.
“É
uma medida de muita sensibilidade. O Enem não coloca nenhum critério que
dificulte a pessoa a gozar desse direito. O nome parece algo simples, mas tem
muito valor, é o passaporte para o acesso a direitos básicos”, diz.
O
presidente do Inep, Chico Soares, explica que o nome social constará também no
cartão de confirmação de inscrição que os candidatos recebem pelo correio com
informações para o exame, como o local de prova. As medidas foram tomadas
depois que duas transexuais tiveram problemas, no ano passado, com a
identificação no dia da prova.
“Por
uma questão de segurança, a identificação dos candidatos tem que ser feita pelo
CPF. Mas foi com muita discussão com os movimentos, que chegou-se à solução do
atendimento pelo telefone. A pessoa faz a inscrição, se identifica civilmente e
liga para o 0800, onde tem um atendimento personalizado”, acrescenta Soares.
Disponível em: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/quase-70-travestis-e-transexuais-pedem-nome-social-no-enem> Acesso em: 23 de mai. 2014.
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